Criar um negócio de sucesso foi a parte fácil para empresário com doença grave

Raphael transformou a marca Fico em febre nos anos 80, mas tem de lutar até hoje contra a esclerose múltipla

Transgressão às regras. Foi assim que o empresário Raphael Levy conseguiu apaziguar o seu espírito contestador para hoje, aos 52 anos, ser protagonista de uma trajetória de superação e inspiração para muita gente.

O fundador da Fico transformou a marca em febre nos anos 80 com a venda de carteiras e mochilas emborrachadas, e assim, convenceu a família (e o mercado) sobre as possibilidades comerciais do surfe. Não bastasse isso, Raphael também desafiou a medicina ao impor sua força de vontade como parte do tratamento contra a esclerose múltipla.

“Eu estava no auge da minha vida quando fiquei doente. Na lua de mel, perdi a visão e tive impotência (sexual). Voltei a enxergar uma semana depois. Os médicos disseram que a impotência era psicológica”, relembra. O susto foi agravado, tempos depois, por fortes dores nas pernas. Foi nesse período que Levy, ou Fico, como é conhecido desde bebê, teve paralisia da cintura para baixo. Sem respostas, procurou tratamento em Boston, nos Estados Unidos. Enquanto isso, seu irmão e sócio, Claudio Levy, tomou conta do negócio.

“Eu voltei dois meses depois sem diagnóstico, cadeirante. E de repente eu tive que enfrentar a minha mulher, a família, 200 funcionários, uma marca e o meu trabalho. Eu tive que olhar pra eles e dizer que não estava com medo de não voltar a andar”, conta.

Perseguir o sonho de surfar de novo virou meta. E Fico começou a desafiar a medicina. Incorporou, por conta própria, quatro horas de fisioterapia no tratamento diário, além das outras quatro horas recomendadas pelos médicos. A afinidade com os esportes desde a infância também ajudou. E os efeitos positivos de tanto esforço não tardaram a chegar.

Da experiência traumática, o empresário procurou extrair os ensinamentos. Com ajuda dos amigos e da família retomou a vida, teve uma filha, voltou a surfar e a trabalhar na marca que fundou por “vocação”.

A rotina exige ainda medicação forte, com doses diárias de morfina, mas as lições tiradas amenizam as dores físicas e as da alma, que Fico ainda carrega. Uma das formas encontradas por ele foi o engajamento para divulgar informações sobre a esclerose múltipla.

“Eu morri e nasci muitas vezes. Mas nunca deixei de ter esperanças. A Fico está completando 30 anos, um sinal de que eu nunca desisti”, finaliza.

Um acerto
O tratamento contra esclerose múltipla fez o empresário perceber a importância de divulgar informações sobre a doença. Engajado, criou o selo ‘Eu Faço o Bem. Faça Você Também’, onde empresas podem contribuir com a causa. “Faço por uma questão pessoal, mas isso ajudou a Fico, que hoje é uma empresa com responsabilidade social”, conta.

Um erro
O empresário aponta a formação acadêmica, preterida por ele para pegar onda na praia, para a aflição de seus pais, como algo que poderia ter facilitado a administração dos negócios. “Eu queria surfar e já trabalhava. Não gostava muito de estudar. Mas vejo que fez falta. Não porque eu deixei de fazer alguma coisa, mas por ter levado mais tempo que os outros.”

Uma dica
A experiência de vida e profissional ensinaram Fico a se tornar resiliente – para voltar a andar e praticar esportes, mas também na administração da empresa. Assim, o empresário é enfático ao recomendar aos iniciantes que nunca deixem de acreditar nos seus sonhos. “Tudo muda quando você passa por isso. Hoje eu sei o valor que a família, os amigos e o trabalho têm.”