Domingo, 24 Janeiro 2021 21:00

Dificuldades pessoais inspiram negócios voltados para nichos do mercado

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O sucesso de uma pequena empresa pode estar no atendimento a demandas de públicos específicos, como pessoas com nanismo ou alérgicos

Oferecer o produto certo para o cliente certo. Esse é o princípio da segmentação de mercado e o caminho para aumentar as chances de sucesso de um negócio. Quanto mais específico, melhor. Por isso, trabalhar com nicho, isto é, uma parcela particular do público, é uma boa opção para as micro e pequenas empresas.

Foi isso que fez Josi Zurdo, criadora da marca de roupas Cintura de Boneca. Aos 33 anos e com 1,49 m de altura, ela sempre teve muita dificuldade na hora de comprar roupas. Josi conta que mandar fazer a barra das calças, por exemplo, é algo que pessoas mais baixas sempre precisarão, porém, quando o assunto são peças de roupa mais específicas, ficava impossível gastar pouco. “Esse problema ficou muito comum na fase adulta. Eu trabalhei boa parte da vida com RH, então eu precisava de peças mais trabalhadas, como blazer. Essa já é uma peça mais cara, mas no meu caso, era preciso gastar o valor do blazer e o do ajuste para minhas medidas”, relembra.

Após ser demitida da última empresa em que trabalhou, Josi se viu diante da decisão de voltar ao mundo corporativo ou investir em um negócio próprio. Foi então que ela decidiu montar sua marca de moda petit, nicho de mercado voltado para mulheres com menos de 1,60m. Até mesmo o nome da marca surgiu dessa dificuldade na hora de comprar roupas. “As pessoas sempre se questionavam se eu realmente tinha problemas com isso, falavam que eu tinha a cintura de boneca, como um elogio, mas elas não conseguiam enxergar a minha dificuldade”, lembra.

Depois de montar seu negócio, Josi passou a pensar quais seriam os problemas que um antigo colega de trabalho deveria encontrar. “Em meu último emprego, eu trabalhei com Fernando Vigui, atual presidente da associação Nanismo Brasil. Quando eu comecei a marca, logo me lembrei dele, afinal se era difícil para mim, imagina como seria para as pessoas com nanismo”, conta.

Em uma conversa com Fernando, ela ficou sabendo que as pessoas com nanismo possuem um biótipo ainda mais particular do que apenas a baixa estatura, o que atrapalha na hora de conseguir roupas. “Juntos, nós definimos alguns corpos diferentes e eu produzi com base nessas medidas. Foi daí que nasceu a Via Voice, minha recém-lançada marca de roupas focada nesse público.” Segundo Josi, o plano para o futuro é acompanhar a opinião dos clientes para poder seguir lançando novas coleções, sem esquecer do apoio da associação. “Eu tenho recebido muitos pedidos de mãe de crianças com nanismo para que a gente produza uma linha infantil. Graças ao apoio dessa comunidade, nós conseguimos criar o que criamos”, diz.

A consultora do Sebrae-SP Esmeralda Queiroz da Cruz afirma que trabalhar com necessidades específicas pode ser um caminho mais interessante para tornar a empresa competitiva. Com a vantagem de que, muitos casos, o desejo de direcionar a atuação a uma fatia muita específica do mercado surge a partir de experiências pessoais, como ocorreu com Josi. “Acontece aquela dificuldade pessoal de encontrar no mercado algum produto ou serviço que o empreendedor precisava, então a oportunidade nesses casos fica muito clara”, diz Esmeralda.

A consultora ressalta que atingir um grande público é o desejo de muitos empresários, mas nem sempre é a melhor opção. “É muito preocupante quando alguém aparece querendo investir naquilo que todos estão investindo, sempre seguindo o pensamento ‘se outros estão faturando, eu também vou’. Ao trilhar esse caminho, por muitas vezes, a empresa dele será apenas mais uma a estar nesse mercado”, explica.

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